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domingo, 4 de julho de 2010

Add as a friend (Análise de uma campanha publicitária em curso)


O pensador francês Roland Barthes criou, numa comunicação de 1964 intitulada  Rhétorique de l'image, a ideia de que a imagem publicitária comporta diferentes níveis: nela podemos ver um sentido literal, directo, a que chamamos denotação e um outro sentido, figurado, a que chamamos conotação. Na análise bartheana, este nível de linguagem funciona no domínio do simbólico e a criação de sentido implica uma partilha de códigos culturais específicos entre o emissor e o receptor: fora de um determinado código cultural a mensagem não produz significado. A linearidade e temporalidade da linguagem coloquial são substituídas por ligações propostas no espaço em que a imagem se inscreve.
O construtor de automóveis Mitsubishi está a promover uma campanha no mínimo curiosa: associa um dos modelos da sua actual oferta ao sentimento de pertença a uma rede social e transforma este laço num argumento publicitário. Esta campanha da Mitsubishi, com presença televisiva, em outdoors e na Internet desenvolve-se sobre a ideia de que um automóvel pode ser um amigo, como qualquer outro dos que podem existir numa rede social. Na primeira das imagens extraídas do site português do construtor, o texto resume-se ao nome do fabricante e do modelo, acompanhado pela representação icónica do botão de aceitação de um novo amigo, neste caso inspirado directamente na versão anglo-saxónica do site social Facebook. É de notar que o tamanho do botão ocupa praticamente tanto espaço horizontal como a viatura. Qual é o púbico-alvo desta imagem? Muito provavelmente estamos a falar de uma faixa jovem, com um poder de compra relativamente elevado, alguma formação académica e uma ligação forte à cultura digital. Não sei se será demasiado abusivo dizer que este target está mais próximo dos nativos digitais que dos chamados imigrantes. O sentido denotativo estabelece-se assim entre o acto de adicionar um novo amigo à rede, com todas as implicações sociais que daí decorrem e o de adquirir um veículo automóvel.  


Na segunda imagem há duas novidades: o aparecimento de texto em português — “Um amigo para a vida”, que reforça a dimensão do acto de aceitação de uma nova relação e a diminuição do tamanho da imagem do botão, comparativamente com o tamanho do veículo. O texto em português respira no cabeçalho da imagem.


Uma outra imagem, aparecida  mais recentemente, retoma o essencial da primeira, mudando o texto do botão — “like this”. A construção simbólica que se destaca já não é a do acto de aceitação do novo amigo, mas sim a satisfação que ele fornece. Esta sequência de imagens conta pois uma história em que os ingredientes provém de um estilo de vida digital.

Os média digitais chegaram à maioridade. Este target publicitário é provavelmente o mesmo a quem há 12 ou 15 anos eram vendidas as primeiras Playstation, Nintendo 64, Gameboy ou Sony Walkman.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Descrição das actividades da Unidade Curricular de Médias Digitais e Socialização.

A Unidade Curricular de Médias Digitais e Socialização.do Mestrado em Comunicação Educacional Multimédia da Universidade Aberta, da responsabilidade da Professor Maria João Silva desenvolveu-se ao longo de várias áreas temáticas, das quais quero deixar aqui um breve relato, tentando posteriormente referir alguns aspectos relacionados com recursos, problemas emergentes e percursos de pesquisa que fui fazendo ao longo deste tempo.

Actividade 1 NATIVOS DIGITAIS VS IMIGRANTES DIGITAIS, Perfil do Estudante Digital. A actividade arrancou no início do mês de Março, com a formação de grupos. O grupo em que me integrei — Grupo Branco — constituído pela Áurea Conde, Luísa Santos e Nuno Lopes, iniciou os trabalhos com um profundo empenho e um clima excepcional de cooperação, que se manteve ao longo de toda a unidade.
A proposta de trabalho apresentada pela Professora Maria João Silva traduziu-se na criação do perfil do estudante digital, a partir de dois textos de Marc Prensky: The Emerging Online Life of the Digital Native: What they do differently because of technology, and how they do it e Digital Natives, Digital Immigrants. Este trabalho funcionou como um excelente exercício de aquecimento para as actividades posteriores, tendo sido convertido numa apresentação em PowerPoint, partilhada com os restantes grupos.
 A actividade prosseguiu com discussão síncrona até 28 de Março.


A Actividade 2, IDENTIDADE SOCIAL NA ADOLESCÊNCIA, Discussão do Processo de Construção da Identidade na Adolescência centrou-se essencialmente na questão da construção da identidade social na adolescência. A discussão assíncrona resultante da leitura dos textos propostos gerou uma série de abordagens interessantes e linhas de leitura diversificadas. Aproveitei para trazer para a discussão o modelo ecológico proposto por Urie Bronfenbrenner.

Deu-se depois início à Actividade 3 — MEDIA DIGITAIS E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SOCIAL, Actividades Sociais e Desenvolvimento da Identidade nos Jovens — com o mesmo grupo a analisar e sintetizar um texto de Danah Boyd: Why Youth Social Network Sites: The Role of Networked Publics in Teenage Social Life. O trabalho colaborativo do grupo, feito na plataforma GoogleDocs atingiu um total de 963 revisões, o que demonstra por si só um profundo empenho de todos os intervenientes. O resultado final do grupo foi disponibilizado numa página Web.

Em paralelo procedeu-se à construção de um glossário da cultura digital, para o qual escrevi duas entradas:

i. Chat rooms /Chat
O termo chat, que poderíamos traduzir por conversação no português europeu ou bate-papo no português do Brasil, designa a possibilidade de comunicar em tempo real através da Internet. Os primeiros chats apenas suportavam a transmissão e recepção de texto e foram progressivamente ganhando capacidades de processamento de som e de imagem.
Chat rooms são espaços de comunicação em rede, normalmente síncrona e muitas vezes temáticos. 
Os primeiros espaços foram os chamados talkers, muitas vezes associados a jogos em rede, interactivos, do género MUD (Multi-User Dungeon); as primeiras tentativas bem sucedidas remontam ao início dos anos 80 do século passado (1983-1984, com os trabalhos de Mark Jenks e Todd Krause). O conceito foi evoluindo e extravasou largamente os propósitos iniciais.
Em 1988 o finlandês Jarkko "WiZ" Oikarinen escreveu os primeiros programas de cliente servidor daquilo que viria a ser o protocolo IRC (Internet Relay Chat). Este protocolo ganhou imensa popularidade nos anos subsequentes e terá conhecido o seu pico de utilizadores nos primeiros anos do século XXI. 
O acesso ao servidor de IRC faz-se através de um programa cliente, sendo o mIRC o programa mais conhecido. A interface do programa simplifica a introdução dos comandos, ao permitir a utilização de ícones em vez da linha de comando em modo texto dos primórdios. 
A ligação ao servidor faz-se pela introdução de um endereço. Embora o registo não seja obrigatório, a maior parte das chat rooms apenas está acessível a utilizadores registados. O utilizador passa a dispor de um nickname e de uma palavra-passe, garantindo assim um acesso personalizado aos servidores.
A estrutura mais representativa do IRC em Portugal é a PTnet, a operar desde 1997. Esta rede interliga actualmente cerca de 16 servidores, tendo já sido composta por mais de 30, há alguns anos. [...]


ii. Civic Activism 
O conceito de activismo cívico, (nas suas vertentes de intervenção cívica, participação cívica), recobre uma ampla gama de domínios e de modos de actuação. 
Os seus objectivos podem estar centrados na mudança nas áreas política, social, económica, cultural, ambiental, bem como nas orientações filosóficas, religiosas ou estilos de vida.
As suas formas de actuação podem envolver a ideia de protesto ou de confronto ou podem, pelo contrário, ser pautadas pela ideia de não-violência e pela tentativa de chegar directamente às pessoas e não aos governos ou instituições responsáveis.
A história apresenta-nos uma longa linhagem de personalidade e organizações orientadas para o activismo cívico: figuras como Gandhi ou Bertrand Russell, organizações como a Greenpeace ou a Amnistia Internacional são exemplos conhecidos de intervenção cívica profunda. Entre nós seria legítimo pensar em grandes movimentos como a campanha eleitoral do General Humberto Delgado ou a actuação de organizações como a AMI ou o Banco Alimentar Contra a Fome.
Civic Activism Online O aparecimento e a crescente disponibilidade da Internet permitiu que os seus recursos para, de um modo rápido e económico, denunciar abusos, passar mensagens e documentos muitas vezes censurados pelas autoridades, recrutar voluntários, angariar fundos, promover petições e abaixo-assinados.
Apesar de tudo a Internet não é imune à censura imposta pelas autoridades - a organização Reporters Sans Frontières considera haver cerca de 45 países que limitam o acesso dos seus cidadãos à rede. Os activistas tem, nestes casos, que demonstrar uma grande imaginação e recursos astuciosos para conseguir furar as barreiras impostas pela censura.
A cultura anglo-saxónica cunhou um neologismo - hacktivism - pela junção dos termos hacker+activism. Neste caso trata-se de aproveitar as vulnerabilidades tecnológicas da rede para promover ataques a serviços, instituições ou, em casos-limite, a um país. As motivações dos autores não são sempre claras e a visibilidade que os média costumam dedicar a estas ocorrências amplificam bastante o seu alcance.

A Actividade 4, UTILIZAÇÃO SOCIAL DOS MEDIA DIGITAIS: A PERSPECTIVA DOS JOVENS, Entrevista a Jovens sobre a Utilização Social dos Media Digitais, desenvolveu-se entre os meses de Maio e Junho. Numa primeira fase e dentro do grupo com que iniciei a unidade de MDS, procuramos construir um esboço de guião para uma entrevista sobre a perspectiva dos jovens no uso dos media digitais. As propostas aí surgidas foram transportadas para o fórum geral de construção do guião, que gerou um instrumento que apliquei a um jovem de 17 anos; a entrevista gravada em formato mp3 e depois transcrita foi disponibilizada no fórum e analisada em conjunto com as outras duas que o trabalho de grupo gerou. Este trabalho foi também disponibilizado numa página Web. A discussão que se seguiu entre os membros dos diferentes grupos foi também bastante frutuosa e permitiu abrir pistas para a reflexão sobe um tema fundamental para quem está ligado aos problemas da educação especialmente nas suas vertentes mais directamente relacionadas com as tecnologias da informação.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Media Digitais e Socialização - Primeira Abordagem


Os trabalhos da Unidade de MDS inicaram-se com uma reflexão sobre o conceito de imigrante digital vs nativo digital, a partir de uma reflexão sobre dois textos de Marc Prensky: The Emerging Online Life of the Digital Native (2004) e Digital Natives, Digital Immigrants (2001). 
Marc Prensky define-se no seu site, como Visinário, Consultor, Autor, Orador, Inventor, Designer de Jogos, Designer de Aprendizagem e Futurista, o que já não é pouco para uma pessoa só :-)
Esta distinção é bastante interessante, na medida em que permite de certo modo separar as águas entre diferentes paradigmas. Prensky coloca a questão de um modo simples e claro:


Should the Digital Native students learn the old ways, or should their Digital Immigrant educators learn the new?
Parece mais ou menos evidente que a resposta é a que faz com que os educadores "imigrantes" tenham que se preparar para as novas funções, como eu e os colegas estamos a fazer. Aqui, provavelmente há lugar para um pouco de futurologia, com todas as reservas que o passado tem mostrado: infelizmente a futurologia (eu prefiro o termo prospectiva) tem falhado e, de um modo geral, as previsões e premissas de quem se dedica a este exercício passam ao lado do "futuro". Basta lembrar as considerações de Alvin Toffler sobre o fim do papel e constatar que nunca se gastou tanto papel como nos dias de hoje ou a ideia da computação centralizada, em vez da computação distribuída que dá corpo a toda a actual tecnologia.

Prensky chama a atenção para as mudanças no crescimento dos nativos digitais e elenca também sérias dificuldades:  

Today, when a student is motivated to learn something, they have the tools to go further in their learning than ever before – far beyond their teachers’ ability and knowledge, and far beyond what even adults could have done in the past.
to the fullest, while ignoring, to a larger and larger extent, the things they are not motivated to learn, which , unfortunately, includes most, if not all, of their schoolwork.
Reside aqui talvez uma das principais dificuldades do actual desenho curricular, quando confrontado com as características dos novos aprendentes. Há conteúdos que tem que ser necessariamente aprendidos independentemente da forma em que são apresentados