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domingo, 11 de julho de 2010

O outro lado...







A cidadã britânica de raízes cingalesas Mathangi "Maya" Arulpragasam, mais conhecida como MIA ou M.I.A. tem várias facetas interessantes: é cantora, produtora musical, criadora de moda, além de manifestar uma intervenção política digna de nota. Depois de se assumir como uma defensora do terceiro mundo, da liberdade de expressão e do fim da violência presente nos videojogos, MIA surpreendeu muito boa gente quando anunciou a sua convicção de que plataformas como o Facebook ou o Google são controladas pela C.I.A:

Everyone on the Internet is like, “Oh my God, come and join Facebook!” They’re all so optimistic… and really, everyone is fucking you up behind the screens. And I don’t like that.  It makes it difficult for me to interact with my fans knowing that.  Google and Facebook were developed by the CIA, and when you’re on there, you have to know that.”

Até ao momento os visados não responderam.

Que motivações terá a artista?


Convicções? Conhecimento exacto e profundo das suspeitas que lança?  Quinze minutos suplementares de fama? Muitas hipóteses e, pelo menos para já, poucas respostas...

Há realmente um outro lado nos média digitais e está aí para durar: fenómenos incontornáveis como o roubo de identidade, a obtenção fraudulenta de dados pessoais, a falsificação de sites institucionais (actividades que cabem na designação de phishing), a engenharia social nas suas diversas declinações, o boato, a contrafacção, são fenómenos com os quais vamos ter que nos habituar a conviver. Infelizmente, a generalidade das instituições que supostamente deveriam trabalhar em prol da segurança na rede parecem mais apostadas na difusão de uma cultura de evitamento que na formação de uma literacia digital critica e activa.

Esta teia de ocorrências é de tal modo nova, que surgem até questões - legítimas, sem dúvida - para as quais o uso social não forneceu ainda respostas satisfatórias: que fazer, por exemplo, das contas de correio e das redes sociais de uma pessoa que faleceu?



terça-feira, 6 de julho de 2010

Palavra do ano 2009



Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.
Ludwig Wittgenstein

O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome
Gabriel Garcia Marquez



O New Oxford American Dictionary, dicionário de inglês norte-americano com mais de 250.000 definições e entradas, editado pela Oxford University Press foi, em finais do ano passado, amplamente referido pelos meios de comunicação de todo o mundo, quando os seus responsáveis definiram unfriend como a palavra do ano de 2009.


Os termos do anúncio, no blogue da divisão americana da editora:

Birds are singing, the sun is shining and I am joyful first thing in the morning without caffeine. Why you ask? Because it is Word of the Year time (or WOTY as we refer to it around the office).  Every year the New Oxford American Dictionary prepares for the holidays by making its biggest announcement of the year.  This announcement is usually applauded by some and derided by others and the ongoing conversation it sparks is always a lot of fun, so I encourage you to let us know what you think in the comments.
Without further ado, the 2009 Word of the Year is: unfriend.
unfriend – verb – To remove someone as a ‘friend’ on a social networking site such as Facebook.
As in, “I decided to unfriend my roommate on Facebook after we had a fight.”
“It has both currency and potential longevity,” notes Christine Lindberg, Senior Lexicographer for Oxford’s US dictionary program. “In the online social networking context, its meaning is understood, so its adoption as a modern verb form makes this an interesting choice for Word of the Year. […] Unfriend has real lex-appeal.”

Aqui está, mais uma vez, o emergir de novos comportamentos e atitudes tão recentes que ainda não há sequer linguagem adequada: estes termos vão sendo criados por um público anónimo que não se limita a ser um auditório passivo mas, pelo contrário, participa e constrói. É a capacidade de incorporar o mundo que determina, em grande medida, a vitalidade de uma língua. O inglês presta-se admiravelmente à criação de neologismos e esta constatação não deixa de ser um factor de preocupação para quem está ligado à educação e, em particular, aos seus domínios tecnológicos






terça-feira, 29 de junho de 2010

Descrição das actividades da Unidade Curricular de Médias Digitais e Socialização.

A Unidade Curricular de Médias Digitais e Socialização.do Mestrado em Comunicação Educacional Multimédia da Universidade Aberta, da responsabilidade da Professor Maria João Silva desenvolveu-se ao longo de várias áreas temáticas, das quais quero deixar aqui um breve relato, tentando posteriormente referir alguns aspectos relacionados com recursos, problemas emergentes e percursos de pesquisa que fui fazendo ao longo deste tempo.

Actividade 1 NATIVOS DIGITAIS VS IMIGRANTES DIGITAIS, Perfil do Estudante Digital. A actividade arrancou no início do mês de Março, com a formação de grupos. O grupo em que me integrei — Grupo Branco — constituído pela Áurea Conde, Luísa Santos e Nuno Lopes, iniciou os trabalhos com um profundo empenho e um clima excepcional de cooperação, que se manteve ao longo de toda a unidade.
A proposta de trabalho apresentada pela Professora Maria João Silva traduziu-se na criação do perfil do estudante digital, a partir de dois textos de Marc Prensky: The Emerging Online Life of the Digital Native: What they do differently because of technology, and how they do it e Digital Natives, Digital Immigrants. Este trabalho funcionou como um excelente exercício de aquecimento para as actividades posteriores, tendo sido convertido numa apresentação em PowerPoint, partilhada com os restantes grupos.
 A actividade prosseguiu com discussão síncrona até 28 de Março.


A Actividade 2, IDENTIDADE SOCIAL NA ADOLESCÊNCIA, Discussão do Processo de Construção da Identidade na Adolescência centrou-se essencialmente na questão da construção da identidade social na adolescência. A discussão assíncrona resultante da leitura dos textos propostos gerou uma série de abordagens interessantes e linhas de leitura diversificadas. Aproveitei para trazer para a discussão o modelo ecológico proposto por Urie Bronfenbrenner.

Deu-se depois início à Actividade 3 — MEDIA DIGITAIS E CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE SOCIAL, Actividades Sociais e Desenvolvimento da Identidade nos Jovens — com o mesmo grupo a analisar e sintetizar um texto de Danah Boyd: Why Youth Social Network Sites: The Role of Networked Publics in Teenage Social Life. O trabalho colaborativo do grupo, feito na plataforma GoogleDocs atingiu um total de 963 revisões, o que demonstra por si só um profundo empenho de todos os intervenientes. O resultado final do grupo foi disponibilizado numa página Web.

Em paralelo procedeu-se à construção de um glossário da cultura digital, para o qual escrevi duas entradas:

i. Chat rooms /Chat
O termo chat, que poderíamos traduzir por conversação no português europeu ou bate-papo no português do Brasil, designa a possibilidade de comunicar em tempo real através da Internet. Os primeiros chats apenas suportavam a transmissão e recepção de texto e foram progressivamente ganhando capacidades de processamento de som e de imagem.
Chat rooms são espaços de comunicação em rede, normalmente síncrona e muitas vezes temáticos. 
Os primeiros espaços foram os chamados talkers, muitas vezes associados a jogos em rede, interactivos, do género MUD (Multi-User Dungeon); as primeiras tentativas bem sucedidas remontam ao início dos anos 80 do século passado (1983-1984, com os trabalhos de Mark Jenks e Todd Krause). O conceito foi evoluindo e extravasou largamente os propósitos iniciais.
Em 1988 o finlandês Jarkko "WiZ" Oikarinen escreveu os primeiros programas de cliente servidor daquilo que viria a ser o protocolo IRC (Internet Relay Chat). Este protocolo ganhou imensa popularidade nos anos subsequentes e terá conhecido o seu pico de utilizadores nos primeiros anos do século XXI. 
O acesso ao servidor de IRC faz-se através de um programa cliente, sendo o mIRC o programa mais conhecido. A interface do programa simplifica a introdução dos comandos, ao permitir a utilização de ícones em vez da linha de comando em modo texto dos primórdios. 
A ligação ao servidor faz-se pela introdução de um endereço. Embora o registo não seja obrigatório, a maior parte das chat rooms apenas está acessível a utilizadores registados. O utilizador passa a dispor de um nickname e de uma palavra-passe, garantindo assim um acesso personalizado aos servidores.
A estrutura mais representativa do IRC em Portugal é a PTnet, a operar desde 1997. Esta rede interliga actualmente cerca de 16 servidores, tendo já sido composta por mais de 30, há alguns anos. [...]


ii. Civic Activism 
O conceito de activismo cívico, (nas suas vertentes de intervenção cívica, participação cívica), recobre uma ampla gama de domínios e de modos de actuação. 
Os seus objectivos podem estar centrados na mudança nas áreas política, social, económica, cultural, ambiental, bem como nas orientações filosóficas, religiosas ou estilos de vida.
As suas formas de actuação podem envolver a ideia de protesto ou de confronto ou podem, pelo contrário, ser pautadas pela ideia de não-violência e pela tentativa de chegar directamente às pessoas e não aos governos ou instituições responsáveis.
A história apresenta-nos uma longa linhagem de personalidade e organizações orientadas para o activismo cívico: figuras como Gandhi ou Bertrand Russell, organizações como a Greenpeace ou a Amnistia Internacional são exemplos conhecidos de intervenção cívica profunda. Entre nós seria legítimo pensar em grandes movimentos como a campanha eleitoral do General Humberto Delgado ou a actuação de organizações como a AMI ou o Banco Alimentar Contra a Fome.
Civic Activism Online O aparecimento e a crescente disponibilidade da Internet permitiu que os seus recursos para, de um modo rápido e económico, denunciar abusos, passar mensagens e documentos muitas vezes censurados pelas autoridades, recrutar voluntários, angariar fundos, promover petições e abaixo-assinados.
Apesar de tudo a Internet não é imune à censura imposta pelas autoridades - a organização Reporters Sans Frontières considera haver cerca de 45 países que limitam o acesso dos seus cidadãos à rede. Os activistas tem, nestes casos, que demonstrar uma grande imaginação e recursos astuciosos para conseguir furar as barreiras impostas pela censura.
A cultura anglo-saxónica cunhou um neologismo - hacktivism - pela junção dos termos hacker+activism. Neste caso trata-se de aproveitar as vulnerabilidades tecnológicas da rede para promover ataques a serviços, instituições ou, em casos-limite, a um país. As motivações dos autores não são sempre claras e a visibilidade que os média costumam dedicar a estas ocorrências amplificam bastante o seu alcance.

A Actividade 4, UTILIZAÇÃO SOCIAL DOS MEDIA DIGITAIS: A PERSPECTIVA DOS JOVENS, Entrevista a Jovens sobre a Utilização Social dos Media Digitais, desenvolveu-se entre os meses de Maio e Junho. Numa primeira fase e dentro do grupo com que iniciei a unidade de MDS, procuramos construir um esboço de guião para uma entrevista sobre a perspectiva dos jovens no uso dos media digitais. As propostas aí surgidas foram transportadas para o fórum geral de construção do guião, que gerou um instrumento que apliquei a um jovem de 17 anos; a entrevista gravada em formato mp3 e depois transcrita foi disponibilizada no fórum e analisada em conjunto com as outras duas que o trabalho de grupo gerou. Este trabalho foi também disponibilizado numa página Web. A discussão que se seguiu entre os membros dos diferentes grupos foi também bastante frutuosa e permitiu abrir pistas para a reflexão sobe um tema fundamental para quem está ligado aos problemas da educação especialmente nas suas vertentes mais directamente relacionadas com as tecnologias da informação.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Tecnologias inclusivas e exclusivas

Quando iniciei a unidade de MDS, confrontado com os conceitos de nativo digital // imigrante ddigital de Marc Prensky, lembrei-me de uma crónica publicada há bastante tempo no jornal Público, por volta talvez dos finais do século passado.

Nela o pensador Fernando Ilharco introduziu uma distinção interessante, entre tecnologias inclusivas, que podiam facilmente ser recebidas e operacionalizadas pela generalidade das pessoas e as tecnologias exclusivas, que, como o nome indica, excluíam muitos dos seus potenciais utilizadores ou tornavam-se apanágio apenas de um determinado grupo: o telemóvel ou o serviço de multibanco podiam ser consideradas tecnologias inclusivas, na medida em que o seu uso se generalizou na sociedade. Comparativamente, computadores baseados em texto e não em interfaces gráficas, como os sistemas baseados em MS-DOS ou em Linux dos primórdios teriam desde logo o seu quê de exclusivo, em função do seu carácter algo hermético e da curva de aprendizagem necessariamente longa e laboriosa. Tentei encontrar ecos da crónica online e, infelizmente, nada consegui até ao momento. 
Lembrei-me desta crónica em particular porque sinto que há uma articulação forte entre estas duas dicotomias. Penso poder afirmar que:

1. os nativos digitais são em grande medida os utentes de tecnologias exclusivas,

2. uma tecnologia exclusiva à partida pode tornar-se cada vez mais inclusiva à medida que o seu uso se dissemina e as suas vantagens vão surgindo como evidentes:


uma sequência como a dos BBS (Bulletin Board Systems) Talkers - IRC - ICQ, Skype, Messenger... pode ser lida à luz da sua complexidade decrescente e das dificuldades relativas do seu uso. Se normalmente um nativo digital se sentirá confortável num sistema BBS, um imigrante digital sentir-se-à provavelmente mais à vontade no skype ou no Messenger e,


3. A distinção entre nativos e imigrantes digitais diminui à medida que o carácter inclusivo de uma tecnologia aumenta.